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Esgoto, lixos, compostos tóxicos

Conteúdo
Introdução
Saneamento básico
Tipos e quantidades de refugos
            Lixo municipal sólido
            Lixos industriais e materiais perigosos
            Efeitos à saúde humana e ao meio ambiente
Custo de limpeza
Perspectiva
Referências

Introdução

        As atividades humanas deixam quase sempre algumas marcas no ambiente em volta: a respiração diminui o oxigênio e aumenta o dióxido de carbono; a alimentação deixa materiais fecais; a higiene retorna água suja; e atividades domésticas diariamente acumulam lixos sólidos. Todos estes lixos e refugos precisam ser processados por sistemas artificiais ou naturais, para retornarem ao estado ou materiais anteriores para que o equilíbrio da natureza seja mantido na escala humana de tempo. Nos últimos séculos aumentaram as taxas de produção de refugos e do distúrbio de ecossistemas devido ao aumento explosivo da população humana e do consumo material. Os sistemas naturais de processamento estão sobrecarregados, os sistemas artificiais não estão sendo adequados e o equilíbrio da natureza está sendo perturbado. Esta página mostra alguns fatos sobre o problema dos esgotos, lixos e compostos tóxicos.
        Há diversos tipos de refugos, tais como esgotos e lixos domésticos familiares para todos, entulhos de construção e demolição, rejeitos industriais que a maioria das pessoas não vê, entulhos de mineração longe das cidades, compostos tóxicos que pessoas usam e jogam fora sem prestar muita atenção, metais pesados despejados por indústrias e até lixos espacial e nuclear.
         O processamento de muitos destes refugos está além da capacidade da natureza, ou em quantidade ou em características. Materiais fecais de animais selvagens e restos mortais de animais e plantas são reciclados para a renovação da vida: a natureza desenvolveu mecanismos e espécies para processar e utilizar estes materiais e manter o equilíbrio. Mas os esgotos humanos, especialmente de grandes cidades, são de enormes quantidades concentrados para serem tratados naturalmente. A utilização de sistema de esgoto é antiga: os Romanos já tiveram canais para remover materiais fecais humanos para fora das cidades. Porém, sistema de tratamento de esgotos é relativamente recente. No início do século vinte algumas cidades dos Estados Unidos começaram construir estações de tratamento de esgotos mas este movimento foi bem limitado até meados do século, quando o governo americano promoveu pesquisa, treinamento de pessoal e construção de estações [1]. Lixos domésticos, como restos de comida, roupas usadas, papéis e móveis, são de materiais biodegradáveis mas a quantidade é tão grande que não podem ser processados naturalmente. Outros refugos como automóveis, pneus, produtos de plásticos e compostos tóxicos artificiais são de materiais para os quais não há sistemas de processamento na natureza. Os refugos acumulados precisam de espaço físico para disposição e são ameaças para a saúde humana.
        Está aumentando a conscientização dos problemas e há movimentos para reciclar os materiais jogados fora, reduzir a taxa de produção de refugos, processar os esgotos municipais e minimizar os efeitos negativos dos lixos de sociedades industrializadas. Porém são fortes os desejos de consumir novos produtos e de jogar fora e esquecer os materiais usados. Os custos financeiros de infra-estruturas de processamento e de sua operação e manutenção são altos, os requisitos tecnológicos não são desprezíveis para alguns materiais e para outros não há maneira prática de controle ou processamento.

Saneamento básico

        A água é essencial para a vida humana mas é também uma incubadora e transmissora de agentes de doenças. Em conseqüência, uma das condições básicas de vida, além do fornecimento de água potável, é a remoção de materiais fecais para fora da esfera de atividades do dia a dia, para que os microorganismos que proliferam no esgoto não entrem na água consumida ou em contato direto com pessoas. Hoje no Brasil, a maioria dos moradores nas cidades usufrui os sistemas básicos de água e esgoto como uma ordem natural mas a prevalência destes sistemas é uma realização relativamente recente e ainda não é para todos, como pode ser visto nas favelas. Mundialmente milhões de pessoas sofrem de falta de água potável e de sistemas de saneamento básico (Água Doce). A prevalência de sistemas de tratamento de esgoto é ainda menor, sendo que uma parte da água suja é despejada diretamente nos rios e mares. As situações nos Estados Unidos, relatadas na Ref. [2], são seguintes. Em 1968, com a população de 200,7 milhões, 140,1 milhões de pessoas (69,8%) foram servidas por sistemas públicos de tratamento de esgoto, dos quais 61% eram de tratamento secundário ou melhor. Em 1996, com a população de 265,2 milhões, estes números aumentaram para 189,7 milhões de pessoas servidos (71,5%) e 91% dos sistemas com tratamento secundário ou melhor. No Brasil, a proporção de crianças de 0 a 6 anos que vivem em domicílios com saneamento não adequado caiu de 66,2% em 1991 para 54,4% em 2000 [3]. A Ref. [4] mostra números de distritos com coleta de esgoto sanitário, com ou sem tratamento, e tipos de corpo receptor em 2000, embora não inclua detalhes como população, quantidade e grau de tratamento. O número total de distritos é 4097, sendo 1383 (34%) com tratamento e 2714 (66%) sem tratamento. O tipo de corpo receptor mais usado é rio, 1111 casos com tratamento (80%) e 2295 casos sem tratamento (85%). Outros receptores incluem lago, lagoa, mar e baia.
        Uma indicação da quantidade de água suja emitida como esgoto pode ser obtida nos seguintes números. No Reino Unido mais de um milhão de metros cúbicos por dia (Mm3/d) de esgoto sem tratamento ou parcialmente tratado são despejados no mar [5]. Segundo Ref. [6] de 2000, 60% da população dos Estados Unidos geram 53 Mm3/d de água suja, 10% da qual despejados sem tratamento.
        O tratamento da água suja de esgoto envolve diversas etapas [1, 6]. No pré-tratamento, primeiramente grandes materiais sólidos são removidos por telas e em seguida são removidos areias e outros materiais duros que podem danificar equipamentos. No tratamento primário, materiais que flutuam ou assentam são removidos num tanque de sedimentação. Este tratamento remove cerca de um terço dos materiais orgânicos e praticamente nenhum dos minerais dissolvidos. No tratamento secundário, oxigênio é injetado para que microorganismos aeróbicos transformem os materiais orgânicos em formas inertes como dióxido de carbono. Nos tratamentos primário e secundário 85-90% dos materiais orgânicos são removidos mas a maioria do nitrogênio e fósforo, que são nutrientes e causam a eutroficação, permanece na água que sai do tratamento secundário. Para remover estes materiais, tratamento terciário (ou avançado) é usado em algumas estações de tratamento. Finalmente, para remover microorganismos patogênicos, a água é tratada com cloro. As lamas que saem dos tratamentos primário e secundário são tratadas para remover a água até atingir 20-30% sólida e podem ser queimadas, aterradas ou usadas como adubo.

Tipos e quantidades de refugos

        Refugos foram produzidos em todas as atividades humanas, como vida diária de pessoas, comércio e indústria, desde antigamente. Porém, a industrialização nos últimos séculos, a crescente população, a civilização baseada no capitalismo com intenso consumo, e a globalização do comércio aumentaram a taxa de produção de refugos no mundo inteiro. A produção de produtos de consumo, principalmente nos países industrializados, precisa de matérias primas como minérios, madeira e combustíveis fósseis, cuja produção é acompanhada de enormes quantidades de rejeitos, muitas vezes em países subdesenvolvidos. O comércio que promove intensos consumos utiliza grandes quantidades de materiais promocionais e de embalagem, como papel e plástico, que tornam se, eventualmente, lixos municipais. As indústrias químicas produzem novos compostos, inclusive os tóxicos, e utilizam metais pesados que permanecem no meio ambiente por longo tempo. Atividades aparentemente benignas e conveniências de dia-a-dia, como o uso de automóveis e diversos produtos descartáveis, contribuem ao aumento de danos ambientais e refugos.
        Lixos municipais sólidos são da categoria de refugo mais familiar para a maioria das pessoas. Segundo IBGE [7], 228 mil toneladas de lixos são coletadas diariamente no Brasil (1,3 kg per capita por dia), das quais 37% são depositados em aterro controlado, 36% em aterro sanitário e 21% em lixão. O restante, somente 6%, é tratado em estações de decomposição, triagem, incineração e outros meios. Nos Estados Unidos 225 milhões de toneladas são gerados por ano (2,2 kg per capita por dia) [8]. Um terço é reciclado ou utilizado em decomposição. A maioria do restante é usada para geração de energia elétrica ou aterrada. Atualmente (a referência é de 2001) 102 usinas elétricas operam em 31 estados, queimando 30 milhões de toneladas de lixos municipais anualmente e gerando 2.800 MW de energia elétrica, suficiente para suprir 2,5 milhões de famílias.
        A Ref. [9] cita alguns números sobre a composição de refugos. Nos Estados Unidos são descartados por ano 1,6 milhões de toneladas (Mt) de carpetes, 2,7 Mt de poliestireno, 13 Mt de alimentos, 183 milhões de barbeadores, 2,7 bilhões de baterias, 350 milhões de latas pressurizadas de tinta, 136 Mt de químicos orgânicos e inorgânicos usados em manufatura e processamento, e 320 Mt de rejeitos perigosos produzidos na produção de compostos químicos. Na extração de gás, carvão, petróleo e minérios são produzidos 1500 Mt de rejeitos. No Reino Unido 2,5 bilhões de fraldas são descartadas e no Japão 30 milhões de máquinas fotográficas descartáveis são usadas por ano.

Lixo municipal sólido
       
Cada dia todas as pessoas jogam fora algumas coisas, contribuindo ao mais de 80 milhões de toneladas de lixos municipais coletados anualmente no Brasil. O lixo municipal sólido (LMS) compõe se de inúmeras coisas de uso diário tais como materiais de embalagem, móveis, roupas, comidas, garrafas, jornais, revistas, baterias e latas. A Ref. [10] mostra a composição do LMS americano: 37,4% papel, 12,0% gramas cortadas de jardim, 11,2% comida, 10,7% plásticos, 7,8% metais, 6,7% borracha, couro e têxteis, 5,5% vidro, 5,5% madeira, e 3,2% outros. No Brasil a maioria do LMS é aterrada, como descrito anteriormente. A quantidade é enorme e a taxa de produção do LMS está aumentando mundialmente. Em alguns países está sendo difícil achar lugares adequados para o aterro municipal. Para a cidade de Nova York o único sítio de aterro na Ilha Staten foi fechado em 2001 e o LMS está sendo enviado para outros locais, até em outros estados. A Ref.[11] mostra as quantidades de LMS importado e exportado entre os estados americanos em 1997. Muitos estados importam e exportam o LMS mas diversos estados são importadores ou exportadores líquidos de grandes quantidades. O estado de Nova York é o maior exportador com mais de 3,6 Mt de exportação liquida (159.000 toneladas importadas). Outros exportadores principais, com entre 1,83 e 1,49 Mt líquidas, são Maryland, New Jersey, Missouri e Illinois. O maior importador é o Pennsylvania (6,04 Mt), seguido pela Virginia (2,7) e Michigan (1,6).
        O problema do LMS está sendo tratado por diversas maneiras: redução de fonte, reciclagem, decomposição, aterro e incineração [10]. A redução de fonte refere se a mudanças em projeto, processos de fabricação, comercialização e uso dos produtos para reduzir os materiais usados, inclusive embalagens, e as toxicidades envolvidas. A reutilização de produtos é uma parte da redução de fonte. Além da redução de volume e toxicidade dos rejeitos, a redução de fonte diminui o uso de recursos naturais, a poluição e o custo direto de coleta e tratamento do LMS. Nos Estados Unidos, em 1999, 50 Mt de LMS foram evitados por esta prática. A reciclagem converte materiais que seriam jogados fora em recursos valiosos, com benefícios ambientais, financeiros e sociais, como no caso de reutilização. Podem ser reciclados diversos materiais, como latas de alumínio, garrafas de plástico, metais e papel. Nos Estados Unidos, 28% do LMS foram reciclados. Os materiais de maiores taxas de reciclagem incluem baterias de automóveis (96%), latas de aço (57%), latas de alumínio (55%), papel (45%), garrafas de plástico (35%), vidro (26%) e pneus (26%). Principais eletrodomésticos também são reciclados à taxa de cerca de 52%.
        A decomposição de materiais orgânicos produz húmus que pode ser usada como adubo e condicionador de terra. Cerca de 25% do LMS americano são materiais orgânicos e a decomposição destes materiais reduz o volume a ser aterrado ou queimado. Cerca de 64 Mt de LMS foram tirados de aterro e incineração pela reciclagem e decomposição nos Estados Unidos.
        A incineração era o método principal de disposição final do LMS no passado. O potencial da incineração para reduzir o LMS é grande, até 90% em volume e 75% em peso [12]. Além disso a energia da combustão pode ser utilizada para gerar energia elétrica e para outros propósitos. Em 1999, nos Estados Unidos, 102 usinas estavam em operação, queimando até 96.000 toneladas de LMS por dia. Mas a incineração indiscriminada é problemática, devido à emissão de materiais tóxicos e à poluição, e a separação dos materiais antes da incineração pode tornar este método economicamente não competitivo, em comparação com outras opções. Atualmente o método principal é o aterro. Diversos materiais tóxicos podem ser emitidos da incineração do LMS, alguns já existentes nele e outros produzidos na combustão. Metais pesados tóxicos como chumbo, cádmio e mercúrio são vaporizados e emitidos no ar. Compostos tóxicos como dioxinas e furanos são produzidos na combustão incompleta de materiais como PVC. Em sistemas modernos de alta temperatura materiais tóxicos como inseticidas podem ser decompostos em materiais inofensivos mas combustão incompleta pode emitir estes materiais. As cinzas podem conter elementos tóxicos. A incineração combinada com a geração elétrica é um ótimo método de disposição final do LMS mas exige certo grau de maturidade tecnológica e infra-estruturas adequadas, como separação de materiais e combustão completa em alta temperatura.
        O aterro é o principal método atual de disposição final do LMS em muitos países. No Brasil, 94% dos mais de 80 milhões de toneladas de LMS produzidos anualmente são aterrados. Nos Estados Unidos a taxa de aterro é cerca de 55% [12]. Há diversos problemas relacionados ao aterro, tais como cheiro, proliferação de animais e aves, escape de líquidos que podem contaminar a água no subsolo, poluição atmosférica, difusão de materiais tóxicos, proliferação e difusão de microorganismos que ameaçam a saúde humana e emissão do gás metano que é um gás do efeito estufa. Além destes problemas, há a dificuldade de encontrar lugares adequados, por diversas razões, tais como objeção dos moradores em volta dos locais propostos, proximidade de fonte de água e geologia inadequada. Inicialmente o aterro era simplesmente um lugar determinado para depositar o LMS, sem preparação, controle ou cobertura. Porém, há algumas décadas, o aterro de LMS em países desenvolvidos é um programa elaborado incluindo preparação do sítio para a contenção, cobertura diária por terra, coleta de gases e líquidos e plano para a reutilização da superfície após o fechamento do sítio. O gás metano é queimado no local ou utilizado como combustível, principalmente para a geração de energia elétrica.

Lixos industriais e materiais perigosos
  
     A vida humana foi sempre ameaçada por materiais tóxicos existentes naturalmente no meio ambiente, como arsênio, metais pesados e compostos tóxicos emitidos na combustão de lenhas. Porém, estes perigos aumentaram nas sociedades industrializadas devido à extração de minérios e combustíveis fósseis em enormes quantidades e ao uso em larga escala de compostos tóxicos que permanecem no meio ambiente por longo período de tempo, tais como agrotóxicos, reagentes industriais e diversos materiais utilizados na vida diária de pessoas. A Ref.[13], junto com paginas relacionadas, lista 275 substâncias ou classes de substâncias perigosas, junto com descrições de características e efeitos à saúde humana de cada material. Materiais classificados perigosos incluem materiais bem familiares de uso diário, tais como baterias, óleo de carros, inseticidas e tintas. Os vinte mais perigosos incluem materiais familiares como arsênio, chumbo, mercúrio, cádmio, cloreto de vinil, PCBs, benzeno, clorofórmio e DDT e outros menos conhecidos como dieldrina e PAHs.
        Segundo Ref.[14], cerca de 3 milhões de toneladas (Mt) de lixos perigosos são produzidos anualmente no Brasil, sendo que apenas 22% são tratados de forma adequada e 78% são depositados nas próprias indústrias ou jogados em lixões. Segundo Ref.[12] com dados de 1996, 253 Mt de lixos perigosos foram produzidos anualmente nos Estados Unidos, 96% dos quais sendo água contaminada em processos industriais. A quantidade e composição dos lixos variam aparentemente de um ano para outro, devido à mudança de tecnologias e outros fatores. A seguir é mostrada grosseiramente a composição dos lixos perigosos nos Estados Unidos, segundo Ref.[15]. Os lixos perigosos são considerados em três classes: característico, somente listado e misto. Os lixos característicos contêm quatro tipos: inflamável, corrosivo, reativo e tóxico. Os listados são classificados por quatro códigos (F, K, P, U) pela EPA (agencia de proteção ambiental dos Estados Unidos). O código F cobre lixos genéricos como lama de tratamento de água usada em processos industriais, solventes e lixos que contêm dioxinas. O tipo K cobre lixos oriundos de indústrias específicas identificadas, tais como refinarias de petróleo e produtores de químicos orgânicos, e inclui lamas, água contaminada, catalisadores e resíduos. Os tipos U e P cobrem produtos químicos comerciais e químicos intermediários de processos de manufatura, incluindo materiais como clorofórmio, ácidos e pesticidas. O tipo U inclui químicos tóxicos mas o tipo P é reservado para químicos altamente tóxicos. As proporções aproximadas das quatro classes (nos Estados Unidos, dados de 1995) são: lixos característicos 60%, somente listados 28% e característicos e listados misturados 12%.
        O tratamento e a disposição destes lixos empregam diversos métodos. Como mencionado anteriormente, mais de 90% dos lixos são de forma de água contaminada. Segundo Ref.[15] os tipos de gerenciamento e as quantidades de lixos perigosos tratados nos Estados Unidos em 1995 são seguintes. A quantidade total gerenciada é 189 milhões de toneladas. A maioria (73%) foi gerenciada em tratamentos aquosos, sendo tratamento orgânico 77%, orgânico-inorgânico 18% e inorgânico 5%. Disposição na terra foi usada para 12,3% dos lixos gerenciados, dos quais a maioria injetada em poços profundos ou lençóis freáticos (94%), seguido por aterro e armazenamento em lagos. Outros métodos incluem incineração e uso como combustível (3%), recuperação (1,8%) e outros (9%).

Efeitos à saúde humana e ao meio ambiente
        São sumariados os efeitos adversos à saúde humana e à biosfera em geral de alguns dos principais elementos e compostos perigosos. A Ref.[16] lista 185 elementos e compostos perigosos junto com descrições de suas características e seus efeitos à saúde humana. As substâncias tratadas a seguir são entre as vinte mais perigosas.

Arsênio. Arsênio é um elemento que ocorre naturalmente e é distribuído largamente na crosta terrestre. Na terra o arsênio combina com oxigênio, cloro e enxofre, formando compostos inorgânicos. Em animais e plantas o arsênio combina com carbono e hidrogênio e forma compostos orgânicos. Compostos inorgânicos são usados principalmente para a preservação de madeira. Compostos orgânicos são usados como pesticidas. Muitos dos compostos de arsênio dissolvem na água e podem existir no ar, na água, em alimentos e poeiras. Em alguns locais a água de poços contém altas concentrações de arsênio devido a sua existência nas rochas. Ingestão ou respiração de arsênio inorgânico em baixas concentrações pode irritar garganta e pulmão. Ingestão de grandes quantidades pode levar à morte. Ingestão ou respiração durante longos períodos, como o uso de água de poço contaminado, pode levar a surgimento de berrugas nas peles. Compostos orgânicos são menos tóxicos mas em altas concentrações podem ter mesmos efeitos.
Chumbo. Chumbo é um metal familiar para a maioria das pessoas e é usado em diversos produtos como baterias de carros, balas de armas de fogo, protetor contra raio X, chumbinho de pesca, gasolina, tinta, solda e produtos de metal. O chumbo pode existir no ar, na água, em comidas, na terra e no pó. O chumbo pode afetar todos os órgãos do corpo mas o sistema nervoso central é o mais sensível, especialmente em crianças. Em altos níveis o chumbo pode enfraquecer dedos e outras partes do corpo, afetar memória, causar anemia, desordenar o sangue e afeta o sistema de reprodução do homem. Em crianças o cérebro pode ser danificado e o crescimento mental e físico pode ser retardado.
Mercúrio. Mercúrio também é um metal familiar para todos na forma de termômetro. O mercúrio é líquido à temperatura ambiental e torna se gás quando aquecido. O mercúrio combina com outros elementos como oxigênio, cloro e enxofre, formando compostos inorgânicos. Combinado com carbono, forma compostos orgânicos como mercúrio metílico produzido por microorganismos na água e no solo. O mercúrio inorgânico é emitido no ar em mineração, na combustão de combustíveis fósseis e lixos, de fábricas industriais, de depósitos naturais no solo, de aterros de lixos e de vulcões. O mercúrio metílico é acumulado nos tecidos de peixes. O sistema nervoso é altamente sensível a todas as formas de mercúrio. O mercúrio metálico e mercúrio metílico são mais tóxicos do que outras formas. Exposição de alto nível pode causar danos permanentes a cérebro, rins e fetos. Um dos casos mais severos de contaminação pelo mercúrio ocorreu no Japão na década de 1950. Centenas de toneladas de mercúrio despejada numa baia entraram na cadeia de alimento e milhares de pessoas sofreram paralisia e desordem mental.
Cloreto de vinil. Cloreto de vinil é um gás incolor e inflamável à temperatura ambiental e é usado para a produção de PVC (poli vinil cloreto). PVC é um dos plásticos mais comuns de uso diário em diversas formas como tubos, revestimento de fios elétricos, móveis e acabamentos internos de automóveis. Inspiração de altos níveis de cloreto de vinil pode causar tontura, perda de consciência e até a morte. Pessoas expostas a cloretos de vinil por longos períodos de tempo têm desenvolvido mudanças nos rins, nos sistemas nervoso e imunológico e na circulação do sangue nas mãos.
DDT, DDE, DDD. DDT (dichlorodiphenyltrichloroethane) é um dos primeiros inseticidas orgânicos largamente usados no meio do século passado. DDE e DDD são produtos contaminadores na produção de DDT. DDE é produzido também na decomposição do DDT e DDD. O uso do DDT está proibido na maioria dos países, desde 1972 nos Estados Unidos, mas continua em alguns países. Estes materiais são quebrados rapidamente por raio solar no ar, metade em dois dias, mas no solo a decomposição é lenta. Eles aderem fortemente a partículas do solo, não dissolvem facilmente na água e somente pequenas proporções entram na água no subsolo. DDT é decomposto por microorganismos lentamente em DDE e DDD: a metade do DDT no solo decompõe em 2-15 anos. DDT e DDE são acumulados nos tecidos gordurosos de peixe, aves e outros animais. DDT afeta o sistema nervoso e causa tremores e convulsões. Mulheres com alto grau de DDE no leite podem ter nenês prematuros e curto período de amamentação. É bem conhecido que, no século passado, muitas aves tiveram dificuldades na reprodução devido a ovos inférteis ou com cascas frágeis que quebravam facilmente, provocados por altos níveis de DDT e derivados acumulados em alimentos.
Aldrina e Dieldrina. Aldrina e dieldrina são inseticidas orgânicos de estruturas químicas similares, utilizadas em grande escala a partir da década de 1950. Devido a severos danos à saúde humana e ao meio ambiente, o uso destes materiais foi restrito na década de 1970 e atualmente está proibido na maioria doa países. Aldrina é transformada, por raio solar e bactérias, em dieldrina que adere a partículas do solo onde permanece por longo período. Plantas absorvem e incorporam dieldrina nos seus tecidos, que podem ser consumidas por animais. Dieldrina é acumulada no tecido gorduroso de animais por longo período. Exposição a baixos níveis de dieldrina por longo período de tempo pode causar dor de cabeça, vômito e movimento incontrolado de músculos. Ingestão de grande quantidade pode causar convulsões e até a morte.

Custo de limpeza

        Nas décadas após a segunda guerra mundial os esforços de reconstrução e a intensa industrialização baseada em avanços acelerados da ciência e tecnologia levaram à prosperidade econômica em diversos países, principalmente na América do Norte e na Europa, mas ao mesmo tempo o meio ambiente foi usado como um depósito conveniente de rejeitos de indústrias e de lixos das sociedades que enfatizavam o consumo material. Nos meados do século problemas do acúmulo de lixos e materiais tóxicos começaram ser notados, motivando o movimento para a proteção do meio ambiente. Em 1970 foi criada nos Estados Unidos uma agência de proteção ambiental (EPA) para proteger a saúde humana e preservar o meio ambiente. Em outros países também a conscientização sobre o meio ambiente cresceu e organizações internacionais, governamentais e não-governamentais foram formadas para salvar o ecossistema da Terra (Salvando o Ecossistema e a Civilização Global). Nesta seção são citados alguns casos que mostram a grandeza dos esforços e do custo necessários.
        O Programa de Despoluição do Rio Tietê (Projeto Tietê) foi lançado em 1992 com o objetivo de acabar com a poluição gerada por esgotos na região metropolitana de São Paulo e, também, controle da poluição industrial e dos resíduos sólidos. Na primeira fase a porcentagem de esgotos tratados em relação aos coletados foi elevada de 20% em 1992 para 60% em 1998 e mais de 1200 indústrias, correspondente a 90% da carga poluidora industrial lançada no Rio Tietê, aderiram ao Projeto e deixaram de lançar resíduos e todas as espécies de contaminantes no curso d’água. O custo desta primeira fase foi 1,1 bilhões de dólares americanos. Na segunda fase os objetivos são a ampliação de ligações domiciliares de esgoto, otimização do sistema instalado e o controle de emissão dos efluentes de mais de 290 indústrias. O serviço de coleta de esgotos deve ser estendido a 90% da população e o tratamento dos esgotos coletados será ampliado para 70%. O investimento previsto é 400 milhões de dólares [17].
        Um outro projeto noticiado freqüentemente é o Programa de Despoluição da Baia da Guanabara. A bacia contribuinte à Baia da Guanabara cobre 12 municípios contendo 6000 indústrias, dois portos comerciais, 16 terminais marítimos de petróleo, cerca de 2000 postos de serviço e 12 estaleiros. As fontes de poluição incluem esgotos produzidos pela população estimada em 8,5 milhões, da ordem de 1,5 milhões de toneladas por dia contendo 465 toneladas de carga orgânica, resíduos sólidos municipais, rejeitos industriais e petróleo. O Programa original é composto de três fases com um custo total de 3,5 bilhões de dólares. A primeira fase, iniciada em 1994 com o custo planejado de 793 milhões de dólares, inclui cinco componentes: saneamento, resíduos sólidos, macro-drenagem, mapeamento digital e projetos ambientais complementares. O maior componente é o saneamento com o custo total de 575,7 milhões de dólares. No final da primeira fase a taxa de tratamento de esgotos deve atingir 70%. O Programa, aparentemente, não está progredindo como planejado mas já foi gasto 650 milhões de dólares até novembro de 2002 [18, 19, 20].
        A situação nos Estados Unidos é pior, exigindo maiores esforços e custo. Pesquisas pela EPA mostraram que existiam no país dezenas de milhares de depósitos abandonados de rejeitos perigosos, ameaçando a saúde humana e o meio ambiente. Em 1980 foi criado um programa nacional a ser administrado pela EPA, denominado Superfund, para limpar estes sítios. Em 1981 foi anunciada a primeira lista de 114 sítios de mais alta prioridade, a serem limpos num programa com a verba de 1,6 bilhões de dólares e 5 anos de duração [21]. Posteriormente cerca de 1400 sítios foram designados sítios de prioridade nacional. Segundo um relatório governamental de 1999 [22], foram gastos mais de 14 bilhões de dólares mas 838 sítios ainda precisam de limpeza (em abril de 1999). A verba para o Superfund no ano 2004 é 1,39 bilhões de dólares [23].

Perspectiva

        Os efeitos do DDT e de outros compostos orgânicos tóxicos como aldrina e dieldrina e os estragos na biosfera causados pelo uso destes materiais em grande escala estão descritos em detalhe no livro Silent Spring por Rachel Carson, de 1962, que deu início ao movimento para a proteção ambiental. Atualmente governos, organizações não governamentais e indivíduos estão se esforçando para alertar o público e resolver os problemas que as sociedades modernas causaram. Há inúmeros sites na WWW sobre o assunto, alguns dos quais estão citados como referências desta página. A mídia, como TV e revistas, também participa deste esforço. Um exemplo é a revista americana National Geographic, que publicou artigos sobre lixos tóxicos [24], poluição atmosférica [25], população [26] e diversos outros artigos relacionados ao longo dos anos.
        As sociedades industrializadas estão estruturadas para a produção e o consumo intenso de inúmeros produtos, inclusive materiais tóxicos para a biosfera, de acordo com os princípios do capitalismo e, aparentemente, as características inerentes do homem. Os povos dos países subdesenvolvidos desejam ter a vida que vêem na TV, nos filmes, nas revistas e na Internet. A produção e o consumo, acompanhado por refugos, precisam ser aumentados continuamente seguindo o crescimento da população mundial e para realizar as aspirações dos povos dos países subdesenvolvidos. Conveniências imediatas como garrafas e barbeadores descartáveis são irresistíveis para os consumidores e, conseqüentemente, também para os capitalistas. A produção de lixos é uma parte integral das sociedades atuais. Os lixos produzidos por cada pessoa parecem desprezíveis, especialmente em cidades onde serviços municipais mantêm os lixos fora da vista, dificultando a percepção do problema pela população geral. Apesar dos esforços contínuos de organizações e indivíduos no mundo inteiro, a perspectiva para o futuro não parece promissora. Em futuro próximo as únicas medidas possíveis parecem ser os esforços dos governos no controle e tratamento dos lixos e a continuação dos esforços de conscientização da população da necessidade de diminuição do consumo e da produção de lixos, tais como reutilização e reciclagem. Para o futuro mais distante, soluções mais fundamentais serão necessárias. O problema de lixos e materiais tóxicos que continuam acumulando no mundo inteiro é somente um dos problemas que ameaçam o futuro da civilização global, como os sumariados nas páginas deste arquivo. A condição mínima para a continuação da civilização global é o restabelecimento e a manutenção do equilíbrio do ecossistema global. A humanidade precisa reconhecer os limites das capacidades do planeta Terra e aprender viver numa maneira sustentável. As soluções fundamentais incluem a população humana limitada e constante e consumos materiais compatíveis com as capacidades reprodutivas do planeta.

Referências
  1. Lynn wastewater treatment plant, <http://members.aol.com/erikschiff/lwwtp1.htm>.
  2. USEPA, Progress in water quality, <http://www.epa.gov/owm/wquality/index.htm>.
  3. IBGE, Indicadores sociais do Censo 2000: um exame detalhado de todos os municípios do país, <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/29112002indsocmun.shtm?PHPSESSID=f9976a6e0dbf1a6e7bccf80038bc8e88>.
  4. IBGE, Pesquisa nacional de saneamento básico, Tabela 50 - Distritos com coleta de esgoto sanitário, com tratamento de esgoto sanitário e sem tratamento de esgoto sanitário, por tipo de corpos receptores, segundo as Grandes Regiões, Unidades da Federação, Regiões Metropolitanas e Municípios das Capitais – 2000, <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb/esgotamento_sanitario/esg_sanitario50.shtm>.
  5. Surfers against sewage, <http://www.sas.org.uk/campaign/theproblem.asp>.
  6. Sewage treatment, <http://users.rcn.com/jkimball.ma.ultranet/BiologyPages/S/SewageTreatment.html>.
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